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20.04.2007

Despedida de FAYET

Em meados de janeiro passado, o meu telefone celular registrava uma ligação não atendida. A incompleta renovação da agenda telefônica do novo aparelho não me permitiu o imediato reconhecimento do número, apenas de sua procedência: 51 - Porto Alegre... Fayet?

Como de hábito, retornei a ligação. A voz, inconfundível, esclareceu-me:
_ Ô Rossana, como andas, guria?
_ Ô, companheiro, que bons ventos o trazem a mim, respondi.
_ E aí, viraste ouvidora?...

Assim, começamos nossa conversa. Questionava-me a decisão tomada ao final de 2004, quando então convidada pelo Prefeito de João Pessoa para coordenar a estruturação e a implantação da Ouvidoria Municipal, trocara com ele algumas figurinhas, quisera a sua opinião.

_ Advinhas de onde te falo, um euforia entronava-lhe a voz.
_ ...
_ ... em minha casinha que tu conhecestes, aqui em Celso Ramos.
_ Uau, nessa bela casa, companheiro! Que me fazer inveja, é?
_ Bela casa é brincadeira tua, né? Não dá nem pra chamá-la de arquitetura.

Fayet falava de sua casa de praia, um pequeno tipo pré-moldado em madeira pintada de azul e branco, em um município de Santa Catarina, onde estivemos juntos por uma vez, a seu convite: Irineu Breitman (RS), Fábio Penteado (SP), Bete França (SP), Romeu Duarte Júnior (CE), Luciano Guimarães (CE) e eu –conselheiros “superiores” do Instituto de Arquitetos do Brasil, recém-saídos de uma reunião em Blumenau, em 1996. Cem hectares de beleza verde, íntegra e lindeira ao mar azul à mercê de nossos olhos. O anfitrião brindava com as cores do paraíso o grupo de militantes da história do Instituto de Arquitetos do Brasil: três presidentes vitalícios, uma conselheira do IAB-SP e um então presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado do Ceará.

_ Guria, quase parti um dia desses, sabias...
_ Como é que foi isso, Fayet..., falei como quem não sabe o que dizer.
_ Tive um AVC e por pouco não fui. A coisa foi feia. Preciso descansar. Quem sabe eu não apareça por aí pra gente passear um pouco?... Tem um canto aí onde
estirar um colchão?...

Minha amizade com Fayet iniciou-se com uma cena banal: uma conta de táxi por pouca teimosia minha não adequadamente dividida com ele e Irineu Breitman. Reunião do COSU em Salvador, paralela ao Congresso Internacional de Pedras e Rochas Ornamentais, festa de comemoração dos 40 anos do IAB-BA – se a memória me ajuda. A minha resistência à gentileza marcou nosso contato e, por vezes, várias, serviu-nos a risonhas lembranças comuns.

Mas já era janeiro e Fayet quis despedir-se...

Ao telefonema, como todo direito, fez-me a cobrança devida: a espera de meu retorno ao documento que editou do processo de restauração e recuperação do cinqüentenário edifício do Palácio da Justiça de Porto Alegre, projeto arquitetônico de sua autoria, que me surpreendeu figurando-se, certo dia de abril de 2006, entre minhas correspondências.

Nem sei quantas vezes o belo documento reteve o meu olhar tão sem atitude sobre a mesa de meu computador. Nele, impressiona a paixão transbordante com que Fayet se dedicara de corpo e alma àquele trabalho, sobretudo para a execução dos murais e da escultura da deusa Themis, objetos concebidos pelo projeto original e não antes executados.

Eu me planejava... ora, com aqueles planos que sequer pensam a vida que um dia se acaba. Dedicar-lhe-ia alguma palavrinha.

Antes tivesse tomado-a ao telefone e me penitenciado por conjeturar o empenho de uma palavrinha a tão importante registro. Não se trata de documento a que se possa dedicar-se um reles comentário. A carência de tempo livre e uma inconsciente constatação, de que pouco me exigia, talvez tenham sido a razão para a protelação.

O livro, modestamente reduzido aos folders, foi lançado conjuntamente à exposição pública dos desenhos e fotos para a execução dos murais e da escultura da deusa Themis do processo de restauro do Palácio da Justiça de Porto Alegre. O registro fotográfico de um fazer para a história da arquitetura brasileira, para as ações de recuperação de bens patrimoniais, que consagra o amor à obra do arquiteto Maximiliano. E que, talvez, o tenham feito sentir-se em sua última jornada.

O tamanho da identidade de Fayet com a Arquitetura e o Urbanismo já era meu conhecido. Por incontáveis vezes, atinei para seus depoimentos nas plenárias do IAB, em que o empenho do Instituto para o controle de qualidade do exercício profissional no país era sempre o tema. As idéias trocadas seguidamente entre olhares de trinta e três anos de vidas diferentes rasgaram as plenárias do IAB e levaram a arquitetura ao dileto ambiente dos bon vivant, aonde dávamos ‘acabamento’ a reflexões felizmente inacabáveis. Passos que rumaram à pista de dança. E o prazer comum da vivência da música conduziu a identidade à amizade entre quem partilha um bem com que, tão simplesmente, se pode revigorar a alma.

Sorte a dos arquitetos brasileiros ter entre eles aquele que tanto labutou pela dignidade da profissão. Grande honra pessoal a minha. Incluída a de servir-lhe a tapioca paraibana em minha cozinha, que preparei sob a minuciosa atenção do arquiteto, quando me visitou na companhia da namorada Helena.

Charmoso Fayet!

A pouca convivência física, entretanto, não se perdeu em densidade, mas raras vezes ele não me apresentou a uma nova namorada. Com Fayet também aprendi a degustar os vinhos, até o tempo em que a vida tomou-lhe esse direito. Numa delas uma declaração insólita: “sou um homem afetivamente ativo”; entusiasmado talvez pela curiosidade da parceira.

De modo que entre nós a arquitetura que produziu pareceu subjugada pelo magnetismo da vida. As tantas cidades brasileiras mais serviram de objeto real, além de pano de fundo de nossos debates. As mesmas que nos acolheram em nossas plenárias do IAB - talvez porque mais me incline, eu, à leitura da cidade. Diálogos que me relataram o militante, o fundador da luta dos arquitetos brasileiros por um conselho próprio de fiscalização da profissão, que ainda vai ver realizar-se.

A notícia inesperada me pegou como uma música de Djavan: “um trem entrou no meu eu...” Uma saudade imensa tomou conta de mim. Meu companheiro se despediu de nós. Para sempre o seu último telefonema, para sempre as suas visões, nunca mais com ele um bailado.

É a vida!
E é bonita, é bonita e é bonita!
Viver êô, êô...

Despedida de FAYET - NOTAS

O Palácio da Justiça de Porto Alegre foi produto de concurso público realizado em 1952, pela Secretaria de obras Públicas do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, em que saiu vencedora a proposta do prédio de características modernas de autoria do arquiteto Luís Fernando Corona e da firma Barcellos e Cia. Ltda, onde trabalhava o futuro arquiteto Carlos Maximiliano Fayet (Fonte: folders publicados para o lançamento da exposição realizada em 04/05/2006).

Imagens colhidas dos folders publicados para o lançamento da exposição artístico-didática dos desenhos e fotos para a execução dos murais, da escultura da deusa Themis e do restauro do Palácio da Justiça de Porto Alegre, de autoria do arquiteto Carlos Maximiliano Fayet, realizada em 04/05/2006, na Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.

Demais fotos do acervo pessoal, de autorias diversas.

Carlos Maximiliano Fayet nasceu no Espirito Santo em 1930, e se formou em 1955 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Rio Grande do Sul, cuja capital, desde então, passou a ser a sua morada. Um dos nomes mais significativos da história das entidades nacionais de arquitetura, foi Presidente Nacional do IAB, Presidente do Departamento do Rio Grande do Sul do IAB, Presidente Nacional da ABEA (Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura), Conselheiro Federal e Vice Presidente do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), entidade da qual recebeu a Medalha do Mérito, maior condecoração da entidade. Também foi homenageado com o Colar de Ouro do IAB, comenda entregue aos profissionais que se destacam por uma dedicação exemplar ao IAB e/ou à Arquitetura Brasileira. Em sua gestão como Presidente do IAB, foi fundado o Colégio Brasileiro de Arquitetos, pelo qual tanto lutou para realizar. Atualmente Fayet, além de Conselheiro Vitalicio do IAB, o representava na Comissão de Prática Profissional junto à UIA - União Internacional de Arquitetos. Várias de suas obras se transformaram em marcos importantes da Arquitetura Gaúcha e Brasileira, além do Palácio da Justiça, como a sede do IAB/RS, o Ceasa de Porto Alegre (em co-autoria com Eladio Dieste), a Refinaria Alberto Pasqualine, o Terminal Rodo-Aquaviário de Vitória/ES, e mais recentemente o Parque Ecológico de Guarapiranga, em São Paulo, primeiro Lugar em Concurso Nacional. Fayet também marcou sua passagem na atividade didática, formando várias gerações de arquitetos gaúchos. (registro baseado no depoimento do arquiteto Gilberto Belleza, Presidente do IAB-SP, publicado no dia da morte de Fayet em
www.iab.org.br )




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